Ouvindo dos labios de D. Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e elle não estivesse junto della para salva-la.
—Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.
Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no fundo do seu coração de moça.
Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés submissa, vencida, escrava!...
Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se diante do seu olhar.
As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem, o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.
Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.
Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.
—A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.
O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.