O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que se aproximassem.
Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.
Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas arrobas de polvora.
O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.
D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.
—Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia, disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos interessa e a mim antes do que a todos.
D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho fidalgo.
—Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á terra aquillo que veio da terra.
Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos illurdirmos a nós proprios.
D. Antonio conteve-os com um gesto nobre.