Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os n'um mesmo olhar de amor paternal.
—Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.
D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.
—O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o titulo de sobrinha.
—Isabel?... exclamou D. Diogo.
—Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.
A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia despertado.
—Pobre mulher!... murmurou elle.
Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua emoção, voltou aos dous moços.
—Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço um juramento; basta-me a vossa palavra.