Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue, eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia arriscar o ataque.

O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição, nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.

Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua marcha.

Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao peito:

—É meu!... meu só!

Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e sonora, mas em tom de energia e resolução.

O italiano rio.

—Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a tiracollo; ella vo-lo agradecerá.

Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração offensiva.

Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse um só instante com os olhos o inimigo.