Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e lembrava-se dos anginhos de Deus.
Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso, lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.
No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que costumava praticar.
Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos; parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua alma.
Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola brilhante que bem se podia chamar a alma do amor.
O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe sensações voluptuosas.
Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno semblante.
—Como estás bonita! disse a menina de repente.
E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.
—Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de Cecilia.