O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava, arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do sangue quente e fumegante.

Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo e abafado.

O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais terrivel.

Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na matta dous galhos soccos de biribá, e roçando rapidamente um contra o outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para jantar.

Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.

Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro, e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a picada por onde tinha seguido a cavalgata.

Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com uma trofa de pennas amarellas.

Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra, e assim ficou algum tempo.

Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção que o outro tomára pouco tempo antes.

V
LOURA E MORENA