O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle sabia.

Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano executara sua trama.

O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já acudido ao pensamento do indio.

Foi ter com Alvaro que o esperava.

O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para sempre.

Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.

Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.

Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.

O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola esplendida.

Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de suas esperanças.