Este fidalgo era D. Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade.

O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.

A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.

—Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.

—Não digo de todo que não, Sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo commetteo uma imprudencia matando essa india.

—Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, o desculpo!

—Julgais com demasiada severidade.

—E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva, commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.

—Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...

—Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra que conquistamos, mas são homens!