Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os seus ornatos.
Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e devoção; o espirito de nobreza que em D. Antonio de Mariz era um realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.
No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade, e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um throno.
Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato do culto, que D. Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.
Apezar desta differença de caracteres, D. Antonio de Mariz, ou por concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel, exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia immediatamente que era escusado insistir.
Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a repugnancia que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus sentimentos.
—Fallaveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.
—Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o fidalgo.
—Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antonio!
—E vós com extrema benevolencia, D. Lauriana. Assim como não quero que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua companhia.