Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.
E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava a fachada do edificio.
Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.
Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima que desfiava-lhe pela face.
Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle passava.
De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas palavras imperceptiveis:
—Si eu quizesse!
Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.
O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a pupilla negra de Isabel?
Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?