Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:
—Pery!...
Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se ligeiramente no matto.
Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande avanço.
Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero o coração como para reter o sangue que espadanava.
Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a força da vontade e o poder da natureza.
O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.
Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer lutar ainda.
Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente retrahindo e tocou a terra com os joelhos.
Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar, e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual se abraçou convulsivamente.