Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello accusatorio que ia fulminar contra Pery.
Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava para causar-lhe um faniquito.
Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.
Desta vez porém D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?
Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antonio de Mariz assomava á porta.
—Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?
—Ahi a tendes! exclamou D. Lauriana apontando para a onça comum gesto soberbo.
—Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as presas do tigre.
—Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o trouxe!...
—Deve ter sido um habil caçador, disse D. Antonio contemplando a féra com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo: não tem o signal de uma só ferida!