Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu-se com extraordinaria rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou direito ao gabinete onde se achava recolhida a familia.
Recuárão porém lividos e tremulos; horrorisados diante da cena muda e terrivel que se apresentava aos seus olhos espantados.
No meio do aposento via-se um desses grandes vasos de barros vidrados, feitos pelos indios, e que continha pelo menos uma arroba de polvora. De uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder-se no fundo do paiol, onde se achavão enterradas todas as munições de guerra do fidalgo.
Duas pistolas, a de D. Antonio de Mariz e a de Alvaro, esperavão um movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao volcão. D. Lauriana, Cecilia e Isabel de joelhos, oravão julgando a cada momento ver confundirem-se no turbilhão todos os espectadores dessa scena.
Era esta a arma terrivel de que fallára ha pouco D. Antonio, quando dizia a Alvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os seus inimigos. O moço comprehendeu então a razão por que o fidalgo o tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Pery, julgando-se bastante forte para defender elle só, a sua familia.
Quanto aos aventureiros, lembrárão-se do juramento solemne de D. Antonio de Mariz; o fidalgo os tinha todos fechados na sua mão, e bastava apertar essa mão para esmaga-los como um terrão de argila. Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quizerão fugir, mas não tiverão animo de dar um passo, e ficárão como pregados ao solo.
Ouvio-se então um rumor de vozes da parte de fora, e Ayres Gomes seguido pelos aventureiros apresentou-se á porta da sala.
Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre elle. Dous dos seus companheiros cahirão a seus pés estorcendo-se em convulsões horriveis, e soltando gritos que mettião dó e compaixão.
A principio ninguem comprehendeu a causa dessa morte subita e violenta; mas a lembrança do veneno de Pery acudio logo á memoria de alguns e explicou tudo.
Os aventureiros que chegavão guiados por Ayres Gomes apoderárão-se de Loredano, e forão ajoelhar-se confusos e envergonhados aos pés de D. Antonio de Mariz, pedindo-lhe o perdão de sua falta.