O indio estremeceu.

—Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora.

—Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?...

Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir sobre o espaldar da cadeira.

—Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida pelo somno.

Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se escapava a respiração doce, branda e igual.

Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições de Cecilia.

Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não achar o que receiára.

Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D. Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada, correu para o quarto que occupava, e desappareceu.

A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes de vida que lhes restavão.