D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.
Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata suspensa ao tecto.
Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem heroica do soldado que morre por uma causa santa.
Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos toros de lenha.
O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que, ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos que precedêrão o supplicio.
Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais importantes do drama.
A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada; tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão perceber os objectos a alguns passos de distancia.
De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo, uma cascata de chammas que cahio sobre a casa.
Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio.
—É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida; preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas para que possamos ver o céo.