—Pery não se engana! Manda sahir os dous.

—Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.

O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do Paquequer.

Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada a casa.

Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D. Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.

Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.

Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu de vergonha.

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a obrigasse a esconder o rosto de pejo.

Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas e contrariedades.

As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos, e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.