«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.
«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava fructos que os alimentavão.
«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha desappareceu.
«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira.
«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira; arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da arvore, acima da montanha.
«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites; depois baixou: baixou até que descobrio a terra.
«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as azas.
«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»
Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas; com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.
Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria para recebê-la.