A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas de Cecilia.

A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme para traga-los, murmurou docemente:

—Meu Deus!... Pery!...

Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime loucura.

Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás raizes.

Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado.

Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a immobilidade.

Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.

Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente pela torrente.

A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada pelas vegetações aquaticas.