Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre a prancha.
—Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.
—Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.
A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.
Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse momento esquivar-se a elles.
Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle impunha respeito ao aventureiro.
Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.
No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo era o italiano depositario.
Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no abysmo; não passou de um desejo.
Venceu a final a tentação.