—Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.
—Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o thesouro que rejetais!
O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciencia.
—Jurais? perguntou Loredano.
—Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.
—Avante então!
Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro como uma especie de ponte suspensa.
—Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.
O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.
A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa, e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.