O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu uma vela de cera côr de rosa.

O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia appareceu cercada de uma aureola.

Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que nem fôra interrompido.

Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.

A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder.

IV
NA TREVA

Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos que acabavão de passar.

Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.

Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites de grande calma.

O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria naquella mesma noite.