Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.

Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis a D. Antonio de Mariz.

Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi toda essa parte do edificio.

Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.

Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.

Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe, dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da noite em que tudo estava recolhido.

Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro, que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e aceitou o offerecimento.

Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.

Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.

Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão, tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.