—Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.
D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventureiros o seu olhar severo.
O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavão.
Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres Gomes.
O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras em que esta vão deitados.
Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.
O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu amigo ignorava como elle.
Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.
Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.
Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem cabia tomar as providencias que o caso pedia.