—Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar! Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.
Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.
—Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por que motivo!...
—Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.
Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em lançar o golpe.
D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.
VII
OS SELVAGENS
Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz.
O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro.
Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração, derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas.