O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.

O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobrio o peito; nem um tremor imperceptivel agitou os musculos de seu rosto; sua fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar limpido e brilhante não se turvou.

Tal era a influencia magnetica que exercia essa coragem nobre e altiva, que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a vestia do fidalgo paralysou os dedos hirtos do assassino.

D. Antonio sorrio com desdem; e abaixando a sua mão fechada sobre o alto da cabeça de Loredano, abateu-o a suas plantas como uma massa bruta e inerte: então erguendo a ponta do pé á fronte do italiano, o estendeu de costas sobre o pavimento.

O baque do corpo no chão echoou no meio de um silencio profundo; todos os aventureiros, mudos e estaticos, parecião querer sumir-se pelo seio da terra.

—Abaixai as armas, miseraveis! O ferro que ha de ferir o peito de D. Antonio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa áquelles que vivêrão uma vida honrada!

Os aventureiros aturdidos embainhárão machinalmente os punhaes; aquella palavra sonora, calma e firme tinha um accento tão imperativo, uma tal força de vontade, que era impossivel resistir.

—O castigo que vos espera ha de ser rigoroso; não deveis contar com a clemencia nem com o perdão: quatro d'entre vós á sorte soffrerão a pena de homizio; os outros farão o officio dos executores da alta justiça. Bem vêdes que tanto a pena como o officio são dignos de vós!

O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e encarou os aventureiros como para ver se d'entre elles partia alguma reclamação, algum murmurio de desobediencia; mas todos esses homens, ha pouco furiosos, estavão agora humildes, e cabisbaixos.

—Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de Loredano, este homem será justiçado á frente da banda; para elle não ha julgamento; eu o condemno como pai, como chefe, como um homem que mata o cão ingrato que o morde. É ignobil de mais para que o toque com as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo.