IX
ESPERANÇA
Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar.
—Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula.
A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço; saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida.
É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.
—Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez seja pela ultima vez!
—Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança ainda não está de todo perdida.
—Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta vos tocava, vos feria e...
—Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?...
O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da parte exterior pelas settas dos selvagens.