—Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida, Isabel?...

—Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se. Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se esta felicidade me deve custar a vida, embora!...

—Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma.

—E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer...

—Nunca disse semelhante cousa!

—Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é verdade?

—Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas é de amar-vos!

Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as palpitações fortes do seu coração a suffocavão.

Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente, impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude, tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma.

Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom grave.