Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a perder.
Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de sua senhora?
Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se, e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel.
Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio.
Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados.
O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto gráo.
Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas.
Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão juntar-se ás armas e aos ornatos.
Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime por Cecilia, e de seu heroismo admiravel.
Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos supremos: