A faca de Loredano tinha-lhe ferido o braço esquerdo; não soltou porém nem um gemido, não fez um movimento que o trahisse; ganhou o fundo do alpendre antes que o aventureiro voltasse com a luz.
Mas Pery não estava contente; o seu sangue ia denuncia-lo; não lhe convinha de modo algum que o italiano suspeitasse que elle ali tinha estado.
Os morcegos que esvoaçavão espantados pelo tecto do alpendre lembrárão-lhe um excellente expediente; agarrou o primeiro que lhe passou ao alçance do braço, e abrindo-lhe uma cesura com a faca, soltou-o.
Elle sabia que o vampiro procuraria a luz, e iria esvoaçar em torno dos dous aventureiros; contava que as gotas de sangue que cahião de sua aza ferida os enganaria; a realidade correspondeu ás suas previsões.
Apenas Loredano desappareceu, Pery continuou a execução do seu plano; chegou-se a um canto do alpendre onde havia um resto de fogo encoberto pela cinza, e atirou sobre elle alguma roupa dos aventureiros que ahi estava a enxugar.
Este incidente, por insignificante que pareça, entrava nos planos de Pery; a roupa queimando-se devia encher a casa de fumaça, acordar os aventureiros e excitar-lhes a sêde. Era justamente o que desejava o indio.
Satisfeito do resultado que obtivera, Pery atravessou a esplanada: ahi porém foi obrigado a recuar, surprehendido do que via.
Um homem do lado de D. Antonio de Mariz e um aventureiro revoltado conversavão através da estacada que dividia esses dous campos inimigos; havia realmente motivo para que o indio se admirasse.
Não só isso era contra a ordem expressa de D. Antonio de Mariz, que prohibira qualquer relação entre seus homens e os revoltados, como contrariava o plano de Loredano, que temia ainda o respeito e o habito de obediencia que os aventureiros tinhão para com o fidalgo.
O que se tinha passado antes explicava esse acontecimento extraordinario.