—Somos inimigos, camarada; mas isto não impede a um homem cortez de responder quando outro lhe falla.
Desta vez o silencioso sentinella voltou-se de todo:
—Antes da cortezia está a nossa santa religião, que manda a todo christão não fallar a um herege, a um reprobo, a um phariseo.
—Que é lá isto? Fallais serio, ou quereis fazer-me enraivar por nonadas?
—Fallo-vos serio, como se estivesse diante do nosso Santo Redemptor confessando as minhas culpas.
—Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém melhor crente que eu não o é outrem.
—Tendes a lingua um pouco longa, amigo. Mas Belzebuth vos fará as contas, que não eu: perderia minha alma se tocasse o corpo de endemoniados!
—Por S. João Baptista, meu patrão, não me façais saltar esta estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não.
—E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrilego, maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu habito ás ortigas?
—Um frade! Dissestes vós?