Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido que lhe parecia vago e confuso:

—Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio.

—O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora.

—Morrer!... exclamou o fidalgo.

—Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um grito partido do canto da sala fê-lo estremecer.

Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de uma morte voluntaria.

O fidalgo a comprehendeu:

—Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel.

Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a sua alma.

Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava, praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita á sua honra?