Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos que realçam a dignidade do rei da creação?
Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.
Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os selvajens americanos.
Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e filozofico.
Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento—finis spectantium est voluptas.
Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada rezistiria á censura ou ao ridiculo.
Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada.
Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da crueldade com que tratavam os indios.
Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos costumes e indole dos selvajens.