Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica, depois da guerra que era a maior preocupação.
Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as velhas, e por este nome devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças que não faziam vida conjugal.
Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.
O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica, ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem caracterizado, e não simples coito.
A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava temireco, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás outras mulheres, suas amantes, chamava aguaçaba. O marido tinha tambem um nome especial menda, que o distinguia do simples amante.
Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou da guerra.
Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para pintarem os selvajens vivendo a modo de cães.
É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o divorcio por mutuo consentimento.
A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.
Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.