Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, temireco.
Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é possivel que o faça.
Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza, temireco, mãi da familia, das amantes, aguaçabas, que faziam parte da familia na condição de servas, havia—1.o as virjens, cunhantem, mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos anonimos; 3.o as moças ou mulheres que desprezavam o cazamento e viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz, abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome de morixaba, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de Ives d'Evreux, menondere, que equivalia a ladra; porquanto entendiam os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo a outro o amor que lhe pertencia.
Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos, produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante entregava-a ao desprezo da tribu.
Jaguarê agradece a Tupan.—Não achando entre os aborijenes templos e idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos, foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos. Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade.
Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz prezumir a crença de uma decendencia celeste.
Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto. Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.
Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús, ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.