Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos, francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.
Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.
O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu á terra, como na America. Voyage au Nouveau Continent—8.o volume, paj. 243.
Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.
Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.
Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que distingue as idades heroicas.
É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração, pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto.
Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade. Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e guerreira.
Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem brazileiro.