Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear.

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O suplicio.—Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos.

Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de uma sociedade cristã.

Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas, não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia.

Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo ferido,—quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius Mœla. Descrip. da Terra.—Liv. 2o cap. 1o.

Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e a fevera dos pastores. (S. Hieronimo IV.—paj. 201, adv. Jovin.—Liv. 2o.)

O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra dessas cauzas.

É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á existencia do prizioneiro.