Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para um banquete.
Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa em seus atos.
Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si.
Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.—II, 69), do que tenho razão para duvidar.
Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde preterir o rito da relijião tupica.
Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do canibalismo americano.
Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e palpitantes.
Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o. Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel o cativeiro.
Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas, papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do selvajem brazileiro?