Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando a força tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da criação.
O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem, se o homem fosse para elle uma especie de caça?
E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a davam ao prizioneiro?
É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate.
Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o abatiam com um golpe de tacape.
A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder. Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo sentimento de vingança; mas não por sanha brutal.
Ferdinand Saint-Denis (Univers, Brésil, pag. 30) diz com muito criterio:—En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation nous empêche de comprendre la violence.
Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o dente para troféu.
A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a pujança e valor do heróe inimigo.
Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas exajeraram o cruento sacrificio.