CERCO AOS LOBOS

NA

PROVINCIA DO ALEMTEJO

POR

JOSÉ PAULO DE MIRA

EVORA
Typ. de F. C. Bravo—Rua de Aviz 23 e 25
1875

UM BRADO CONTRA AS MONTERIAS
DE
CERCO AOS LOBOS NA PROVINCIA DO ALEMTEJO

E por quem? por quem foi antigamente um grande enthuziasta dellas... mas por isso mesmo, pela grande pratica e experiencia que tem do objecto, é agora contrario a ellas, desde que carecem os meios de que antigamente se dispunha para a boa ordem, execução e resultado dellas. Fallo pela experiencia não só por ter assistido a muitas, como tãobem por ter planeado e derigido não poucas, tãobem por que revendo os planos antigos, aonde encontrei alguns muito bem elaborados, em outros tive de emendar o local da partida de alguns pontos, por isso que se deve ter em vista a qualidade do terreno a percorrer com relação aos outros pontos, por uns terem de atravessar terreno dobrado muito matagoso e ribeiras a atravessar, quando outros pontos teem só terreno plano sem ribeiras e matto fraco. Alem disto tãobem tive de mudar o centro de algumas montarias, porque estes devem ser em uma bacia, donde o cerco geral, quando chegue ás bandeiras, se possa vêr todo de um lado ao outro fronteiro, não ficando parte alguma do cordão em cóva funda donde se não possa observar o bello aspecto do cerco, todo por igual, porque é então difficultoso poder se conter o povo nestas cóvas sem que corrão para as alturas a presencear o que se passa, e então se matta,{4} para depois irem contar etc. Tãobem se deve ter em vista que estes centros do cerco não tenhão matto muito forte, pelo perigo que ha dos caçadores atirarem direito uns aos outros sem se vêrem, mas sim ser o terreno de charneca ou matto curto e sufficiente a que os lobos vão para ali de vontade julgando poderem-se esconder ou acoutar. Isto era quando ainda havia os elementos proprios de que se dispunha, e depois na tranzição de faltarem estes até ao completo acazo da boa ou má execução dellas.

Invoca-se na actualidade montarias de cerco, só lembrados do bom exito que ellas antigamente produzião, mas não se lembrão que isso é impossível agora por faltarem os meios de que então se dispunha, e da submissão a que os povos estavão custumados a obdecerem ás authoridades fossem ellas quaes fossem.

Antigamente era a gente das povoações e dos montes sujeitos ás ordenanças, avizados pelos cabos para comparecerem no dia e local, aonde se mandavão reunir, e então ali o alferes ou patente superior dellas mandava fazer a chamada, e todos aquelles que tinhão sido avizado e não compareciam sem motivo justificado erão depois presos na cadêa os dias que o sargento-mór ou capitão lhes marcava. Alem disto todos os milicianos concorriam ás monterias debaixo das ordens dos seus superiores, e estes responsaveis em fazer cumprir as ordens que recebião para executar sobre o plano da monteria no seu ponto a percorrer, e tãobem erão castigados os milicianos que não comparecião. Tãobem igualmente ia a tropa de linha, (e principalmente aqui os de cavallaria) indo seu piquete com superior para cada um dos pontos marcados ás ordens do director d'aquelle ponto, para o coadjuvar no seu bom desempenho, e mesmo prender algum transgressor ás ordens por este mandada, etc.