LISBOA
TYPOGRAPHIA DE CHRISTOVÃO AUGUSTO RODRIGUES
104—Rua do Norte—104
1882

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A ex.ma sr.ª D. Josephina Pinto Carneiro Perestrello vae lançar-se na turbulenta atmosphera da litteratura. S. ex.ª não se estreia com assumptos banaes. O seu livro é fructo de profundos e aprimorados estudos. Seduziu-a o grande vulto da actualidade: e s. ex.ª não se contentou com a apotheose do marquez de Pombal... foi buscar a justificação dos seus actos nas leis primitivas da monarchia; no assentimento successivo das testas coroadas; e acompanha o illustre ministro até ao momento em que, desprendido dos enormes cuidados da sua vida laboriosissima adormece no duro leito da sepultura; e entra nos dominios da inexoravel posteridade.

Que os anjos protectores das damas honestas e corajosas cubram com as suas azas de ouro a intrepida escriptora é o que muito lhe deseja a sua admiradora e amiga

Lisboa, 1 de maio de 1882.

Maria José da Silva Canuto.

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Não é meu intento, nem teria forças para tão levantados vôos, escrever a historia circunstanciada do grande vulto que se chamou Sebastião José de Carvalho e Mello depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquez de Pombal; pretendo apenas com os elementos que nos legaram historiadores e collectores de memorias da epocha, reduzir a breve transunto os traços principaes da sua, notavel administração, concorrendo assim com uma pequenina parte, porque pouco posso e sei, para remunerar, por occasião do seu centenario, factos que teem em si ensinamento, e que podem servir de estimolo e exemplo.

Procurarei esboçar o perfil d'esse personagem, que dentro em pouco se tornará quasi legendario, pelo muito que valia, pelo muito que conseguiu fazer, e porque n'um só homem se reuniu saber, energia, genio, capacidade, e outros dons que dariam para muitos, mas que reunidas n'elle foram um conjuncto benefico da prodigalidade divina, pois só um tal colosso poderia arcar com todos os obstaculos que se lhe oppunham; com todos os odios, todas as intrigas, todas as calamidades e catastrophes. Só a energia inquebrantavel de um tal reformador poderia levar a cabo a grande obra de regeneração, e progresso de que Portugal foi theatro.

A Providencia amerceando-se d'este paiz que já tivera importancia, insuflou-lhe no espirito todas as qualidades que fizeram d'elle um estadista admirado, não só dos seus, mas ainda mais pelos estrangeiros.