Direi pois como diz mr. John Smith nas suas memorias do{6} Marquez de Pombal d'onde traduzirei e colherei muitos dos traços, com que aqui procurarei dar ideia do seu caracter e feitos:—
[[1]]Such men are rised to station and command
When Providence means mercy to a land,
He speaks, and they appear: to Him they owe
Skill to direct, and strengh to strike the blow,
To manage with address to seize with power,
The crisis of a dark decisive hour.
Ainda referindo-se a elle diz o mesmo auctor a Sir Robert Peel—: Refiro-me á coincidencia que se dá entre a vossa elevada posição, n'este paiz (Inglaterra) e a que outr'ora occupou o grande ministro em Portugal.
Ambos foram em tempos criticos escolhidos para sustentar a honra e a força de grandes nações; e de ambos se exigia o delicado discernimento e a firmeza, que distinguiram o dito Marquez,—qualidades estas que lhe grangearam a admiração e inteira confiança do seu paiz, etc.
Diz ainda o mesmo com referencia á expulsão dos jesuitas:—Se fosse possivel anticipar aqui os promenores das Memorias que se seguem, no meio de todos os successos agitadores do ministerio d'aquelle estadista, seria custoso descobrir uma medida que na sua concepção exigisse mais coragem, ou que em seus resultados tivesse mais duravel importancia do que a expulsão d'aquella seita de Portugal. Este primeiro passo a principio causou admiração, mas depois foi successivamente imitado pelos soberanos catholicos de toda a Europa.»—Portugal enfraquecido pelas muitas guerras que havia sustentado dentro e fóra do paiz, não promettia vir a ostentar mais a grandeza e prosperidade que fruira na epocha em que os seus filhos sulcavam os—mares nunca d'antes navegados—epocha em que floresceram os seus mais illustres navegadores, guerreiros, valentes, insignes escriptores como o nosso immortal cantor dos Lusiadas, poema epico, que alem do seu grande valor real, tem ainda o merito da prioridade, pois foi o primeiro poema epico que se escreveu depois do seculo de Augusto. N'essa epocha a que se chamou a edade de ouro—, os portuguezes levavam a cabo emprezas como a de Vasco da Gama; plantavam o pendão das quinas na Africa, na India, conseguiam estabelecer-se na China, iam á Ethiopia, estendiam o dominio portuguez na Asia desde Ormuz até Malaca{7} etc. Não se satisfizeram porem com os descobrimentos no Oriente e voltaram as suas vistas para o Occidente, devassa Magalhães o estreito que ainda conserva o seu nome, porem morre antes de terminar a empresa que se havia proposto. Foi de então para cá que datam os descobrimentos na America e que Portugal se assenhorea de vastos dominios n'esse continente, e assim se foi desenvolvendo e accrescentando a prosperidade e engrandecimento da nação. Uma e outra haviam sido preparadas e tido principio no reinado de D. João I mestre de Aviz, rei illustradissimo e que deu á patria os mais brilhantes principes.
Em 1415 é tomada Ceuta á força de armas; em 1418 descobre Gonçalves Zarco a ilha de Porto Santo e no anno seguinte a Madeira, já sob os auspicios do infante D. Henrique, em 1433 morreu D. João mas deixou em seu filho D. Duarte digno sucessor.
Em 1444 é descoberto o archipelago dos Açores, e no anno immediato o de Cabo Verde. Reinando já D. Affonso V, tomou este aos Mouros, Alcacer Seguer, em 1458, treze annos depois, foram tomadas Arzila e Tanger. Seguia-se o reinado de D. João II principe que alcançou o ser applidado o Perfeito. Era illustrado, com a sua habil, ainda que por vezes tenebrosa politica, soube abater todos os poderes que o offuscavam conservando firme e superior a authoridade real.
Collisões terriveis obrigaram-n'o por vezes a lançar mão de meios extremos, não vacilando em empregar o punhal para fazer justiça por suas mãos. Foi no seu reinado que em 1482 Diogo d'Azambuja fundou o Castello de S. Jorge de Mina na Guiné, e dois annos depois descobria Diogo Cão o Congo e perto de trezentas leguas de costa. Em 1497 reinando já D. Manuel, primo e herdeiro de D. João II, partia Vasco da Gama a procurar a India Oriental chegando a Calecut com dez mezes de viagem. Em 1500, descobre Alvares Cabral o Brazil.
Foi n'este reinado que o Ceu parecia derramar venturas sobre Portugal, mas foi tambem n'essa epocha que se principiou a elaborar a decadencia que se lhe seguiu.
A emigração para o Brazil tirava á mãe patria os seus filhos mais uteis, e mais tarde a ambição do ouro fazia correr para as terras de Santa Cruz todos que pela industria poderiam colaborar aqui no augmento e conservação da prosperidade nacional. Alli um clima tão diverso do nosso, muitas vezes a miseria, a fome, a nudez, consequencias de uma guerra quasi continua com os indigenas e depois com as hordas de holandezes, de piratas, de inglezes, de francezes, etc., que quizeram successivamente despojar-nos, fez do Brazil um sorvedouro onde se afundavam todos, ou quasi todos{8} os portuguezes que abandonavam a patria por esse El-dorado que se lhe volvia em sudario. Todos esses braços não bastavam para lá, que pela falta de exercitos, estavam esses poucos sendo alvo de ataques e represalias, em que secumbiram, muitos milhares e faziam falta na metropole.