O Albatrós teve então de subir ás zonas mais altas, afim de escapar a um assalto do simún que passeava uma lamina de areia avermelhada á superficie do solo, como faria um excesso de maré á superficie do Oceano. Em seguida, os planaltos desolados da Chebka espraiaram o balastro de lavas ennegrecidas até ao fresco e verde valle de Ain-Massin. Seria difficil imaginar a variedade d’aquelles territorios que o olhar podia abraçar no seu conjunto. Ás collinas cobertas de arvores e arbustos succediam-se longas ondulações pardacentas, ás pregas, como um albornoz arabe, cujos soberbos recortes accidentavam o solo. Ao longe viam-se as “oueds„ de aguas torrenciaes, bosques de palmeiras, grupos de pequenas cabanas sobre um monticulo, em volta de uma mesquita, e entre outras Metliti, onde vegeta um chefe religioso, o grande Marabut Sidi Chick.
Antes da noite, alguns centos de kilometros foram transpostos por sobre um territorio chatissimo, sulcado de grandes dunas. Se o Albatrós tivesse querido fazer alto, teria pousado em terra no fundo do oasis de Marglá, sob um immenso bosque de palmeiras. A cidade apresentou-se muito visivel com os seus tres quarteirões distinctos, o antigo palacio do sultão, especie de Kasbah fortificada, as suas casas construidas de tijolos que o sol se encarregou de cozer, e os seus poços artesianos, abertos no valle, onde a aeronave podia refazer a sua provisão liquida. Mas graças á sua extraordinaria velocidade, as aguas do Hydaspe, sugadas no valle de Cachemir, enchiam ainda os seus depositos, no meio dos desertos de Africa.
Teria o Albatrós sido visto pelos Arabes, Mozabitas, e negros que habitam o oasis de Marglá? Certamente que sim, porque foi saudado por alguns centos de tiros de espingarda, cujas balas voltaram á terra, sem o haverem alcançado.
Veiu depois a noite, essa noite silenciosa do deserto, cujos segredos Felicien David interpretou tão bem!
Durante as horas seguintes, desceram para o sudoéste, cortando os caminhos do El-Goléa, um dos quaes foi reconhecido em 1859, pelo intrepido viajante Francisco Duveyrier.
A escuridão era profunda. Nada puderam vêr do railway transsahariano em construcção, segundo o projecto Duponchel, longa fita de ferro que deve ligar Argel a Tombuctú por Laghuat, Gardaia, e alcançar mais tarde o golpho da Guiné.
O Albatrós entrou então na região equatorial, para além do tropico de Cancer. A mil kilometros da fronteira septentrional do Sahará, transpunha o caminho em que o major Lang encontrou a morte em 1846; cortava os caminhos das caravanas de Marrocos ao Sudão, e sobre essa porção de deserto que os Tuaregs espumam, ouvia o que se chama o “canto das areias„, murmurio dôce e plangente que parece surgir do solo.
Apenas se deu um incidente: uma nuvem de gafanhotos se ergueu no espaço, e cahiu uma tal carregação d’elles a bordo, que o navio aereo esteve prestes a sossobrar. Trataram porém de deitar fora o excesso da carga, menos alguns centos de que François Tapage fez provisão. E cozinhou-os de um modo tão succulento, que Fricollin esqueceu por momentos os seus transes perpetuos.
—Isto vale por camarões! dizia elle.
Estavam então a mil e oitocentos kilometros do oasis de Marglá, quasi no limite norte d’esse immenso reino do Sudão.