Ora, precisamente n’essa épocha, tratou-se de novo do extranho phenomeno, que tanto havia sobreexcitado os espiritos algumas semanas antes.
Com effeito, o objecto mysterioso tinha sido visto, ou, por outra, entrevisto por varias vezes nas altas camadas da atmosphera. Evidentemente ninguem pensava em estabelecer uma relação entre essa apparição tão singular e o desapparecimento, não menos inexplicavel, dos dois membros do Weldon-Institute. De facto seria preciso uma extraordinaria dóse de imaginação para se approximar estes dois factos um do outro.
Seja como fôr, o asteroide, o bolide, o monstro aereo, ou como lhe queiram chamar, tinha tornado a apparecer nas condições que melhor permittiam apreciar as suas dimensões e a sua forma. Primeiramente no Canadá, por sobre os territorios que se extendem desde Ottawa até Quebec, e isso no dia seguinte á desapparição dos dois collegas; depois, mais tarde, por sobre as planicies do Far-West, luctando em velocidade com o caminho de ferro do Pacifico.
A partir d’esse dia, as incertezas do mundo sabio tiveram em que se fixar. Aquelle corpo não era um producto da natureza; era um apparelho volante, com applicação pratica da theoria do “Mais pesado que o ar„. E se o creador, o dono da aeronave, queria ainda guardar o incognito para a sua pessoa, evidentemente o não queria já para a sua machina, visto que acabava de a mostrar tão perto, sobre os territorios do Far-West. Quanto á fôrça mechanica de que dispunha, quanto á natureza dos apparelhos que lhe communicavam movimento, era isso desconhecido. Em todo o caso, o que não deixava duvida alguma era que a aeronave devia ser dotada de uma extraordinaria facilidade de locomoção. Com effeito, alguns dias depois, havia sido vista no Celeste Imperio, depois na parte septentrional do Industão, depois por sobre os immensos steppes da Russia.
Quem era pois esse ousado mechanico que possuia um tal poder de locomoção, para o qual os Estados não tinham fronteiras, nem os oceanos limites e que dispunha da atmosphera terrestre como de um dominio? Devia-se acreditar que era esse Robur, cujas theorias tinham sido tão brutalmente lançadas em rosto do Weldon-Institute, no dia em que veiu bater em brecha a utopia dos balões dirigiveis?
Talvez alguns espiritos perspicazes o tivessem pensado. Mas, cousa singular decerto, ninguem pensou na hypothese de que o tal Robur pudesse estar relacionado de qualquer maneira com o desapparecimento do presidente e do secretario do Weldon-Institute.
Em summa isso teria ficado no mysterio, se não fôsse um despacho que de França chegou á America pelo fio de Nova-York, ás onze e trinta e sete, do dia 6 de julho.
E o que dizia o despacho? era o texto do documento achado em Paris n’uma caixa de tabaco, documento que revelava o que havia succedido aos dois personagens por quem a União ia tomar lucto.
Portanto, o auctor do rapto era Robur, o engenheiro vindo expressamente a Philadelphia para esmagar no ovo a theoria dos balonistas! Era elle que commandava a aeronave Albatrós. Era elle que, para exercer represalias, tinha arrebatado Uncle Prudent, Phil Evans e para mais o Fricollin. E essas personagens deviamos consideral-as para sempre perdidas, a não ser que, por um meio qualquer, construindo um engenho capaz de luctar com o poderoso apparelho, os seus amigos terrestres não conseguissem reconduzil-o a terra.
Que emoção! que pasmo! O telegramma parisiense tinha sido dirigido ao Weldon-Institute. Os membros do club tiveram conhecimento d’elle immediatamente. Dez minutos depois, toda a Philadelphia recebia a noticia pelos seus telephonios, e depois, em menos de uma hora, toda a America, porque electricamente essa noticia se tinha espalhado pelos innumeros fios do novo continente. Não queriam acreditar n’isso, e nada havia comtudo mais certo. Devia ser uma mystificação de mau gôsto, diziam outros! Como é que esse rapto se podia ter realisado em Philadelphia, e tão secretamente? Como é que esse Albatrós tinha pousado em Fairmont-Park, sem que a sua apparição fôsse notada nos horisontes do Estado de Pensylvania?