Mas, haviamos dito, era preciso não imitar servilmente a natureza. As locomotivas não foram copiadas das lebres, nem os navios a vapor dos peixes. Ás primeiras puzeram-lhes rodas, que não são pés; aos segundos helices, que não são barbatanas. E não andam peor por isso. Pelo contrario. Além de que, sabe-se porventura o que dá mechanicamente o vôo das aves, cujos movimentos são extremamente complexos? Pois o dr. Merey não suspeitou que as pennas se entreabriam, ao levantar-se a aza, para deixar passar o ar, movimento difficil de produzir-se com uma machina artificial?
Por outro lado, era fora de duvida que os aeroplanos haviam dado alguns bons resultados. Os helices que oppõem um plano obliquo á camada aerea, era o meio de produzir um trabalho de ascensão, e pequenos apparelhos experimentados provavam que o pêso disponivel, isto é, aquelle de que se pode dispôr além do pêso do apparelho, augmenta com o quadrado da velocidade. Havia n’isso grandes vantagens,—superiores mesmo ás dos aereostatos submettidos a um movimento de translação.
Apesar d’isso Robur tinha pensado que o que ha de melhor era tambem o que ha de mais simples.
Tambem os helices,—“santos helices„, com que tinham atirado á cara de Weldon-Institute, tinham bastado a todas as necessidades da sua machina volante. Uns travavam o apparelho suspenso no ar, os outros rebocavam-n’o em condições maravilhosas de velocidade e de segurança.
Com effeito, theoricamente, por meio de um helice de passo sufficientemente curto, mas de uma superficie consideravel, como o dissera o sr. Victor Tatur, se poderia “levando as cousas ao extremo„, levantar um pêso indefinido com a minima fôrça.
Se o orthoptero (bater de azas das aves) se eleva apoiando-se unicamente no ar, o helicoptero eleva-se ferindo-o obliquamente com os ramos do seu helice, como se subisse por um plano inclinado. Verdadeiramente estas são azas de helices.
O helice caminha necessariamente na direcção de um eixo. Se o eixo é vertical, desloca-se verticalmente; se é horisontal, desloca-se horisontalmente.
Todo o apparelho voador do engenheiro Robur consistia n’estes dois movimentos.
Eis a descripção exacta do que se pode dividir em tres partes essenciaes: a plataforma, os engenhos de suspensão e de propulsão, e as machinas.
Plataforma.—É uma verdadeira ponte de navio, com prôa em forma de espora, tendo 30 metros de comprimento e quatro de largura. Por baixo uma especie de concha, solidamente construida, contendo os apparelhos destinados a produzir a potencia mechanica, o deposito das munições, os utensilios, o armazem geral para provisões de toda a especie, inclusivè agua de bordo. Em volta da ponte, alguns postes de madeira, cobertos de uma rede de ferro, supportam um anteparo com corrimão. Á sua superficie estão os compartimentos destinados, uns ao alojamento do pessoal, outros ás machinas. Nos compartimentos centraes funcciona a machina que põe em acção todos os apparelhos de suspensão, nos da frente a machina do propulsor de deante; no de traz a machina do propulsor correspondente,—ficando cada machina em separado. Do lado da prôa, na primeira divisoria, estão a officina, a cozinha, o posto dos tripulantes. Do lado da pôpa, nos ultimos compartimentos, estão dispostos muitos beliches, entre outros, o do engenheiro, uma casa de jantar, e depois, por cima, uma casa envidraçada, onde está o timoneiro, que dirige o apparelho por meio de um poderoso leme. Todos os compartimentos são esclarecidos por meio de setteiras, fechadas com vidros temperados, que apresentam dez vezes a resistencia do vidro ordinario. Por baixo do casco, está estabelecido um systema de molas flexiveis, destinadas a abrandar os choques, apesar do acto de fundear em terra se poder realisar com uma extrema suavidade; tanto o engenheiro é senhor dos movimentos do apparelho.