Engenhos de suspensão e de propulsão.—Por cima da plataforma erguem-se verticalmente trinta e sete eixos, dos quaes quinze de cada lado, e sete, mais altos, ao meio. Dir-se-hia um navio de trinta e sete mastros. Unicamente esses mastros, em vez de vélas, trazem cada um dois helices horisontaes, de um passo e de um diametro assaz curtos, mas aos quaes se pode imprimir uma rotação prodigiosa. Cada um d’estes eixos tem um movimento independente do movimento dos outros, e além d’isso, de dois em dois, cada eixo gira em sentido inverso,—disposição necessaria para que o apparelho não seja tomado de um movimento giratorio. De modo que os helices, não deixando de continuar a subir sobre a columna de ar vertical, fazem equilibrio contra a resistencia horisontal. Em consequencia d’isso, o apparelho fica munido de sessenta e quatro helices suspensivos, cujos tres ramos são guardados exteriormente por um circulo metallico que, fazendo o papel de volante, economisa a fôrça motriz. Na frente e na retaguarda, montados sobre eixos horisontaes, dois helices propulsivos, de quatro ramos, de um passo inverso muito alongado, giram em sentido differente e communicam o movimento de propulsão. Estes dois helices, de um diametro muito maior que o dos helices de suspensão, podem egualmente girar com uma excessiva velocidade.

Em summa, este apparelho aproveita ao mesmo tempo dos systemas que teem sido preconisados pelos engenheiros srs. Cossus, de la Landelle e de Ponton de Amécourt, systemas aperfeiçoados pelo engenheiro Robur. Mas é sobretudo na escolha e na applicação da fôrça motriz que elle tem direito de ser considerado como inventor.

Machinas.—Não é nem ao vapor de agua ou outros liquidos, nem ao ar comprimido ou outros gazes elasticos, nem ás misturas explosivas susceptiveis de produzir uma acção mechanica, que Robur foi pedir a potencia necessaria para sustentar e mover o seu apparelho. Foi á electricidade, a esse agente que será um dia a alma do mundo industrial. Mas nenhuma machina electro-motriz o produzia; apenas pilhas e accumuladores. Quaes são porém os elementos que entram na composição d’aquellas pilhas, e que acidos os põem em acção? N’isso consistia o segredo de Robur.

O mesmo com respeito aos accumuladores. De que natureza são as suas laminas positivas e negativas, não se sabe. O engenheiro tivera o cuidado de tirar um privilegio de invenção. E afinal o resultado era incontestavel:—pilhas de um effeito extraordinario; acidos de uma resistencia, quasi absoluta, á evaporação e á congelação; accumuladores que deixam a perder de vista os Faure-Sellon-Volckmar; finalmente correntes cujo valor se cifra em numerosas incognitas.

D’ahi um poder em cavallos electricos, por assim dizer, infinito, pondo em acção os helices que communicam ao apparelho uma fôrça de suspensão e de propulsão superior a todas as suas necessidades, seja em que circumstancia fôr.

Mas, convem repetir, isso pertence exclusivamente ao engenheiro Robur, e a seu respeito elle guardou o segredo mais absoluto. Se o presidente e o secretario do Weldon-Institute não conseguirem descobril-o, muito provavelmente ficará perdido para a humanidade.

Escusado é dizer que este apparelho possue uma estabilidade sufficiente, em consequencia da posição do seu centro de gravidade. Não ha perigo de que faça angulos assustadores com a horisontal, nem ha a receiar nenhuma reviravolta.

Resta saber que materia empregára o engenheiro Robur para a construcção da sua aeronave,—nome que pode muito bem ser applicado ao Albatrós. Que substancia era essa tão dura que o bowie-knife de Phil Evans não tinha podido entrar com ella, e cuja natureza Uncle Prudent não podéra explicar? Era papel, unicamente.

Havia muitos annos que esta fabricação tomára um desenvolvimento consideravel. Papel sem gomma, cujas folhas são impregnadas de dextrina e amido, e que depois de apertadas na prensa hydraulica, formam uma materia dura como o aço. Com ella se fazem roldanas, rails, rodas de wagon, mais solidas que as de metal e ao mesmo tempo mais ligeiras. Ora, essa solidez, essa leveza, é que Robur tinha querido utilisar para a construcção da sua locomotiva aerea. Casco, paredes, compartimentos, tudo era feito de papel da palha, que se tornára metal sob a pressão, e até—o que não era para desprezar para um apparelho que corria a grandes alturas—incombustivel. Quanto aos diversos orgãos dos engenhos de suspensão e de propulsão, eixos ou palhetas de helices, era ainda a febra gelatinada que lhes fornecia a substancia resistente e flexivel ao mesmo tempo. Essa materia, que pode tomar todas as formas, insoluvel na maior parte dos gazes e dos liquidos, acidos ou essencias,—não falando já das suas propriedades isoladoras—tinha tido um preciosissimo emprego no machinismo electrico do Albatrós. O engenheiro Robur, o seu contramestre Tom Turner, um machinista e seus dois ajudantes, dois timoneiros e um cozinheiro,—ao todo oito homens,—eis o pessoal da aeronave, bastante para as manobras exigidas pela locomoção aerea. Armas de caça e de guerra, apparelhos de pesca, pharoes electricos, instrumentos de observação, bussolas e sextantes, para traçar o caminho, thermometro para o estudo da temperatura, diversos barometros, uns para avaliar a cota das alturas alcançadas, outros para indicar as variações da pressão atmospherica, um storm-glass para a previsão das tempestades, uma pequena bibliotheca, uma pequena imprensa portatil, uma peça de artilheria montada em rodizio no centro da plataforma, de carregar pela culatra e lançando balas de seis centimetros, um provimento de polvora, balas, cartuchos de dynamite, uma cozinha accesa pelas correntes dos accumuladores, um stock de conservas, carnes e legumes, accomodadas n’um compartimento ad hoc com alguns barris de brandy, de wisky e de gin, finalmente, o necessario para se estar muitos mezes sem necessidade de descer a terra,—taes o material e as provisões da aeronave, não falando já na famosa trombeta.

Havia, além d’isso, a bordo um ligeiro barco de cautchuc, insubmersivel, que podia trazer oito homens á superficie de um lago, de um rio, ou de mar sereno.