—E se a viagem nos não convem?... replicou Uncle Prudent.

—É necessario que convenha!

Eis uma amostra da natureza de relações que se iam estabelecer entre o dono do Albatrós e os seus hospedes, para não dizermos seus prisioneiros. Manifestamente, porém, elle quiz antes de tudo dar-lhes tempo de voltarem a si, de admirar o maravilhoso apparelho que os levava pelos ares, e, de certo, de comprimentar o seu inventor. De modo que fingia estar a passeiar de um lado a outro da plataforma. Ficava-lhes a liberdade de examinar as machinas, a disposição da aeronave, ou de conceder toda a attenção á paizagem que se extendia por baixo d’elles.

—Uncle Prudent, disse então Phil Evans, devemos pairar n’este momento sobre a parte central do territorio canadiano. Esse rio que corre no noroeste é o Saint-Laurent. A cidade que nos ficou atraz é Quebec.

Era, com effeito, a velha cidade de Champlain, cujos tectos de zinco brilhavam ao sol como reflectores. O Albatrós tinha-se pois elevado até quarenta e seis graus de latitude norte, o que explicava o raiar prematuro do dia, e a prolongação anormal da aurora.

—Sim, continuou Phil Evans, é com effeito a cidade em amphitheatro, a collina com a sua cidadella, essa Gibraltar da America do Norte. Eis as cathedraes ingleza e franceza! Eis a alfandega com a sua cupula coroada com a bandeira britannica.

Mal acabára Phil Evans de dizer isto, e já a capital do Canadá começava a reduzir-se ao longe. A aeronave entrava n’uma zona de pequenas nuvens que tiraram a pouco e pouco a vista da terra.

Robur, vendo então que o presidente e o secretario do Weldon-Institute fixavam a sua attenção sobre o conjunto exterior do Albatrós, approximou-se e disse:

—Então, meus senhores, acreditam já na possibilidade da locomoção aerea, por meio de apparelhos mais pesados que o ar?

Era difficil não se deixarem vencer pela evidencia. Comtudo Uncle Prudent e Phil Evans não responderam.