—Isso é cynico!

—Mas assim é!

—E por quanto tempo ainda, cidadão engenheiro, perguntou Uncle Prudent, que não se poude mais conter, por quanto tempo ainda pretende exercer esse direito?

—Pois que, meus senhores! respondeu ironicamente Robur, como me podem fazer uma pergunta d’essas, quando não teem mais do que baixar os olhos para desfructar um espectaculo sem egual em todo o mundo!

O Albatrós mirava-se n’aquelle momento no immenso espelho do lago Ontario. Acabava de atravessar o paiz tão poeticamente cantado por Cooper. Depois seguiu pela costa meridional da vasta bacia e dirigiu-se ao celebre rio que n’elle verte as aguas do lago Erié, quebrando-se sobre as suas cataratas.

Durante um instante, um ruido majestoso, um rugir de tempestade subiu até elle. E, como se se tivesse derramado no ar um nevoeiro humido, a atmosphera refrescou sensivelmente.

Por cima, em forma de ferradura, precipitavam-se massas liquidas. Dir-se-hia um enorme jacto de crystal, no meio de mil arcos iris que produziam a refracção, decompondo os raios solares. Era um aspecto sublime. Na frente d’estas cascatas, uma estreita ponte, tensa como um fio, ligava uma margem á outra. Um pouco acima, á altura de tres milhas, estava a ponte pensil, sobre a qual passava então um comboio que ia da margem canadiana á margem americana.

—As cataratas do Niagara! exclamou Phil Evans.

E este grito escapou-lhe, emquanto que Uncle Prudent fazia todos os esforços para nada admirar d’aquellas maravilhas.