O Albatrós tinha retomado a sua direcção para oéste. Durante esse dia, com uma velocidade média, transpoz o territorio de Caboulistan, cuja capital avistaram por momentos, depois a fronteira do reino de Herát, a mil e cem kilometros de Cachemir.
N’aquellas regiões, ainda tão disputadas, n’este caminho aberto aos russos para as possessões inglezas da India, appareceram ajuntamentos de homens, columnas d’elles, comboios, n’uma palavra, tudo que constitue o pessoal e o material de um exercito em marcha. Ouviram-se tiros de peça e o crepitar da fusilaria. Mas o engenheiro não se mettia em negocios de outrem, a não ser que fôsse para elle um ponto de honra ou uma questão de humanidade. Continuou ávante. Se o Herát, como dizem, é a chave da Asia central, pouco lhe importava que essa chave estivesse n’uma algibeira ingleza ou n’uma algibeira moscovita. Os interesses terrestres nada tinham que vêr com esse atrevido, que tinha feito do ar o seu unico dominio.
Além de que não tardou que o paiz desapparecesse debaixo de um verdadeiro furacão de areia, como é frequente n’aquellas regiões. Esse vento, que se chama “tebbad„, transporta elementos febris com a poeira imponderavel que levanta na sua passagem. E quantas caravanas não veem a morrer n’aquelles turbilhões!
Quanto ao Albatrós, no intuito de escapar a essa poeira que podia prejudicar a finura das suas engrenagens, foi buscar a dois mil metros uma zona mais pura.
Assim desappareceu a fronteira da Persia e as suas vastas planicies que permaneceram invisiveis. O andamento era moderado, apesar de não haver a receiar nenhum escolho.
Com effeito, se a carta indica algumas montanhas, são ellas cotadas a altitudes médias. Mas, nas proximidades da capital, convinha evitar o Damavend, cujo cume, cheio de neve, tem a altura de cêrca de seis mil e seiscentos metros, e depois a cordilheira de Elbrouz, ao pé da qual está construida Teheran.
Desde os primeiros clarões do dia 2 de julho appareceu esse Damavend, emergindo do simún de areias.
O Albatrós encaminhou-se pois de maneira a passar por sobre a cidade, que o vento envolvia n’uma nuvem de fina poeira.
Apesar d’isso, pelas seis da manhã, puderam-se notar largos fossos, em volta do recinto, e no meio, o palacio do Shah, as suas muralhas revestidas de tijolos, as suas bacias, que pareciam talhadas em enormes turquezas de um azul brilhante.
Não passou de uma rapida visão. A partir d’aquelle ponto, o Albatrós, alterando o seu itinerario, dirigiu-se quasi que directamente ao norte. Algumas horas depois, achava-se por cima de uma pequena cidade, construida n’um angulo septentrional da fronteira persa, sobre as margens de uma grande extensão de agua, cujo termo se não podia notar nem ao norte nem ao sul.