—As correntes estão desarranjadas!... Dão se intermittencias!...

E de facto o Albatrós baixava sensivelmente.

Como acontece com as correntes dos fios electricos durante a tempestade, o funccionamento electrico não actuava senão de um modo incompleto nos accumuladores da aeronave. Mas, o que não passa de um inconveniente, quando se trata de despachos telegraphicos, aqui era nada menos que o apparelho precipitado no mar, sem se poder ser senhor d’elle.

—Deixa-o descer, gritou Robur, e saiâmos da zona electrica! Vamos, rapazes! tenham sangue frio!

O engenheiro tinha-se posto em pé sobre o banco de quarto. Os homens, no seu posto, estavam prestes a executar as ordens do mestre.

O Albatrós, apesar de ter baixado alguns centos de metros, estava ainda immerso na nuvem, no meio de relampagos que se cruzavam como peças de fogo de artificio. Era caso de imaginarem que ia ser fulminado. Os helices afrouxaram-se ainda mais, e o que até então não fôra mais do que uma descida um pouco mais rapida, ameaçava agora tornar-se n’uma quéda.

Finalmente, em menos de um minuto estaria no nivel do mar. E dado o mergulho, nada havia que o pudesse arrancar áquelle abysmo.

De subito appareceu por cima d’elle uma nuvem electrica. O Albatrós estava apenas a sessenta pés da crista das ondas. Em dois ou tres segundos, estas teriam inundado a plataforma.

Mas Robur, aproveitando o instante propicio, metteu-se no compartimento central, segurou nas alavancas de impulsão, soltou a corrente das pilhas que já não neutralisava a tensão electrica da atmosphera ambiente ... N’um momento restituiu aos helices a sua velocidade normal, susteve a quéda, e manteve o Albatrós a pequena altura, ao mesmo tempo que os seus propulsores o arrastavam para longe da tempestade, que não tardou em ser transposta.