Quatro d’elles vieram ter cá atraz, de rastos sobre a plataforma.
Que os que se teem achado no mar, a bordo de um navio, direito ao vento, durante uma tempestade, evoquem as suas recordações, e comprehenderão qual era a violencia de uma tal pressão. Unicamente, aqui, era o Albatrós que a creava pela sua incomparavel velocidade.
Em summa foi preciso moderar o andamento,—o que permittiu a Uncle Prudent e a Phil Evans voltar ao seu beliche. No interior dos seus aposentos, como bem dissera o engenheiro, o Albatrós tinha uma atmosphera perfeitamente respiravel.
Mas que solidez tinha aquelle apparelho, para poder resistir a tal deslocamento? Era prodigioso. Quanto aos propulsores da frente e de traz, nem já se viam girar. Era com um infinito poder de penetração que elle entrava na camada de ar.
A ultima cidade notada de bordo, era Astrakan, situada quasi no extremo norte do mar Caspio.
A estrella do Deserto (foi decerto algum poeta russo que assim a denominou), tinha então descido da quinta á sexta grandeza. Aquella simples séde de governo mostrára por instantes as suas velhas muralhas coroadas de inuteis ameias, as suas torres antigas no centro da cidade, as suas mesquitas contiguas ás egrejas de estylo moderno, a sua cathedral cujas cupulas, douradas e semeadas de estrellas azues, pareciam recortadas n’um pedaço do firmamento; tudo quasi ao nivel d’essa embocadura do Volga que mede dois kilometros. Depois a partir d’esse ponto, o vôo do Albatrós não foi mais do que uma especie de desfilada através das alturas do céo, como se fôsse tirado por esses fabulosos hippogrifos, que transpõem uma legua em cada movimento de aza.
Eram duas horas da manhã, do dia 4 de julho, quando a aeronave tomou rumo na direcção noroéste, seguindo quasi o valle do Volga.
As steppes do Don e do Oural seguiam dos dois lados do rio. Se fôsse possivel lançar a vista sobre aquelles vastos territorios, mal haveria tempo para contar as cidades e aldeias. Afinal, quando veiu a noite, a aeronave ia além de Moscow. Em dez horas, tinha transposto os dois mil kilometros que separam Astrakan da antiga capital de todas as Russias.
De Moscow a S. Petersburgo, a linha de caminho de ferro não conta mais de mil e duzentos kilometros. Era portanto questão de meio dia. De modo que o Albatrós, pontual como um expresso, alcançou S. Petersburgo e as margens do Neva pelas duas da manhã.
A claridade da noite, debaixo d’esta latitude onde abunda tão pouco o sol de junho, permitte abraçar um instante o conjunto d’aquella vasta capital.